domingo, 10 de julho de 2011

Avaliar Para Promover - Jussara Hofman

Hoffmann, nesse livro, aponta alguns percursos – para serem percorridos e não somente para serem conhecidos – que possibilitam atitudes educacionais não apenas acordadas com as instituições de ensino do presente, mas com as do futuro também.

Ela diz que avolumam-se as inquietudes em volta da avaliação educacional porque novos rumos para a educação se fazem necessários, e essa realidade acaba por desvelar a caducidade dos atuais processos seletivos das escolas.
Reportando-se a autores como Arroyo, Demo, Zabala e Luckesi, a autora ressalta a preocupação dos teóricos quanto à necessidade de se superar os aspectos positivistas e classificatórios (estes aspectos descansam na competição, na arbitrariedade, no individualismo…) das práticas avaliativas escolares (p. 15).

Para tal superação, é fundamental que o professor assuma a tarefa de investigar, esclarecer e organizar as experiências de aprendizagem. Quando o professor atua de maneira reflexiva, esmerando-se por (re)criar escolhas pedagógicas apropriadas, sua docência se destaca positivamente por causa da promoção intelectiva e moral dos discentes, finalidade imprescindível e inevitável.

A avaliação deve ser uma iniciativa promotora da facilitação da “evolução da trajetória do educando” (p. 21). O aprender do aprendiz se dá longitudinalmente (gradativo e complementar). Isso significa que o professor deve se preocupar com uma ação avaliativa que volte o seu olhar para o futuro dos alunos, respeitando, presentemente, os ritmos, os interesses de cada um, buscando, evidentemente, a aquisição, ao máximo, da aprendizagem deles.
Um ponto extremamente importante destacado pela autora é o que ressalta o fato de que é o aprendiz quem determina o seu próprio tempo de aprendizagem. Ela afirma que muito embora o planejamento do professor seja uma prática importante (não esquecendo-se da flexibilidades desse planejamento), o processo de aprendizagem do discente não obedece rigidamente a caminhos traçados a priori.

A evolução do aprendiz e a edificação de novas representações mentais concernentes a toda a sua vivência no contexto escolar e extra-escolar, é uma realidade que se dá de forma perene. Disso, faz-se obrigatório que o docente compreenda que o dar um passo de cada vez é uma gigantesca conquista.
Agora, conforme a autora, “cada passo do aluno precisa ser observado em seu sentido próprio: de mobilização, de processo, de formulação de conceitos” (p. 46).

Hoffmann também diz que, estruturalmente, a escola atual não oferece tempo ao aluno para manifestar-se, repensar conceitos, reformular hipotéses, entre outros. Por conta disso, ela diz que o caminho percorrido pelo aluno, marcado por sucessos e obstáculos, é que estabelece o tempo da sua aprendizagem. E mais, ela afirma ser de suma importância acompanhar este aluno passo a passo diante desse contexto.

Sobre as múltiplas dimensões do olhar avaliativo, a autora propõe uma reflexão. Ela diz que a vinte anos pergunta aos professores “porque avaliar na escola?”. As respostas que ela tem obtido, de acordo com ela mesma, não são satisfatórias porque os docentes estão à margem da compreensão da real finalidade do processo avaliativo. O destaque que eles dão costuma resumir-se à questão dos registros. Não há um pensar reflexivo sobre as “concepções de educação e de sociedade”.
O saber que a avaliação é um instrumento de controle não pode escapar ao conhecimento do professor. Pela avaliação educacional, estabelece-se o controle da “qualidade da ação da sociedade, do poder público, do professor, do aluno, dos pais…” (p. 60).

Hoffmann também levanta a idéia da finalidade da avaliação sendo observada a partir de uma concepção polarizada: a do controle que cerceia, e a do controle que acompanha. Esste último, marcado por um rigor terno e amoroso, ocupa-se em não amputar o crescimento, a experiência e a autonômia dos aprendizes; ele é exercitado em favor dos alunos. Ele objetiva auxiliá-los em todo o percurso estudantil, identificando-se com com as suas dificuldades, dialogando com eles e apontando-lhes diretrizes adequadas.

A avaliação que controla acompanhando o sujeito, e não o cerceando, é notada quando se analisa a maneira como se dá a intervenção pedagógica. A autora afirma que toda incursão pedagógica precisa adequar-se ao processo de construção do aprendiz. Se não há situações pedagógicas que estimulem a superação de desafios e a busca pelo avanço do sujeito, está evidente que se tem à frente um caso de controle avaliativo que está preocupado somente com a sua utilidade burocrática.

Dentro do processo avaliativo, é essencial a criação de situações educativas que provoquem o aluno, intelectualmente, com vistas ao seu desenvolvimento. Para que esse crescimento se dê, a autora diz que é mais efetiva a prática docente de perguntar do que responder. Também é esperado que isso se dê a partir do aluno para o educador. Na avaliação classificatória (modelo vigente), o comportamento é unilateral onde o professor ensina e depois faz perguntas. Hoffmann diz que “avaliar é essencialmente questionar”, e com isso ela quer dizer que uma prática dialética deve permear a relação entre professor e aluno, a saber: um questionando o outro para construir conceitos que favoreçam o crescimento do aluno, e porque não dizer, do professor também.
Na busca da conjugação entre a avaliação e a mediação, o professor mediador-avaliador deve portar-se de maneira tal que o aluno seja mobilizado (não motivado) para tornar-se um sujeito curioso quanto à possibilidade de aquisição de novos conhecimentos. Também deve ser compromisso do avaliador, instigar o aluno à reflexão das representações mentais (as idéias) que estão em construção, objetivando uma autonomia crescente do mesmo. Em síntese, para Hoffmann, o educador-avaliador deve desafiar, inquirir, confrotar, exigir constantemente soluções inéditas e melhores…

Quanto à dinâmica do processo avaliativo, é dito pela autora que a aprendizagem se concretiza quando o sujeito atua sobre o objeto (pode ser tanto, o professor, bem como o colega ou um texto analisado) e quando ele interage com o meio sociocultural. Essa é uma perspectiva piagetiana e vygotskyana que exalta a mediação e a interação dentro do processo de construção do conhecimento.

Cabe ao professor, além de compreender a forma como se dá a aprendizagem, entender que o aluno pode e deve ser o personagem principal da sua caminhada de construção do conhecimento. Um mecanismo que auxilia o docente no ato de franquear ao aluno a oportunidade de ser o agente de edificação de sua própria formação estudantil, e que ajuda também o discente nessa ação necessária, é a mobilização.

A autora, valendo-se de Charlot[1], usando o termo mobilização – este traz a idéia de uma atitude que procede, antes de mais nada, de dentro – ensina que, primeiramente, o que o aluno precisa fazer para ser o sujeito protagonista de seu processo de aprender é mover-se. É claro que para tal movimento do aluno, há a necessidade da criação, por parte dos professores, das condições que lhe desperte e encante.

Quanto à questão dos registros na avaliação mediadora, a autora escreve que para os teóricos da avaliação, não é mais concebível que adote-se registros classificatórios, segregadores, excludentes, para a análise e para o acompanhamento do processo de aprendizagem. Da mesma maneira, eles questionam a simplificação na hora de se interpretar as idéias arquitetadas pelo discente por meio de provas objetivas corrigidas por meio de gabaritos. De acordo com autora, esses insrumentos classificatórios não harmonizam-se com a complexidade do conhecimento.

Hoffmann mostra-se atenta, também, ao risco que há em se fundamentar o acompanhamento de um aprendiz valendo-se somente do artifício da observação. Pela observação, o professor apenas obtêm uma visão holística. Segundo ela, é necessário muito mais do que impressões gerais para se acompanhar efetivamente à progressão das aprendizagens. É fundamental que existam anotações, conceitos ou notas. Somente assim os dados obtidos poderão ganhar características de instrumentos de avaliação um aluno (p. 119).
Ela ressalta que na perspectiva da avaliação mediadora, não há uma preocupação com critérios exatos e definidos.

Jussara Hoffmann opõe-se à teoria de alguns teóricos que dizem ser necessário comunicar aos alunos quais os critérios avaliativos serão usados para aquilatar uma determinada tarefa. Para ela, a coerência de argumentos – entre outros – não pode ser adotada como um critério porque o aluno não aprende sobre coerência de argumentos simplesmente porque o professor o anuncia como um critério avaliativo, mas, ele irá aprender a dar sentido às suas idéias escritas ou faladas pela ininterrupção de todo labor pedagógico (p. 121-122).
Emseu entendimento, o instrumento de avaliação serve como um questionamento à espera do imprevisível, do diferente, do novo, da reação de sujeitos diferentes, com suas respostas diferentes à uma pergunta comum a todos. Por isso, a rigor, na tarefa avaliativa, segundo a visão mediadora, não existem critérios precisos (re)pensados de antemão.

Bom, há mais a ser extraído desse significativo trabalho. A totalidade da riqueza do mesmo não está contida nessa resenha porque o proceder de um resenhista é, naturalmente, seletivo, pois as propriedades de um objeto não podem ser abarcadas em sua completude.

Esta obra de Hoffmann é destinada à educadores do ensino formal e não-formal, coordenadores pedagógicos e acadêmicos do curso de pedagogia. Eu a recomendo por causa da sua busca incansável em promover a respeitabilidade nas interações professores/alunos.

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sexta-feira, 8 de julho de 2011